
Acho que me perdi no meu próprio labirinto. Ou perdi simplesmente. Presa, vazia e sombria será, com certeza, a melhor maneira de meter as coisas cruas e nuas tais como são. Terei estado antes neste desconcerto? Talvez, num dos pesadelos que me atormentam a noite. Quererá isso dizer que não estou a viver uma realidade? Sinto-o como se fosse. Oh, sim, só pode ser real. Bem real. Tão real que me dói cada milímetro que me percorre nas veias. Alastra-se e alastra-se como se fosse um vírus, dono de tudo o que eu me esforcei tanto para criar. Não acredito que me percorra o mal nas entranhas, mas terei-me tornado tão feita de... mágoa? Terei perdido todas as forças? Receio que sim. Não me sinto com nenhuma. De facto, não me sinto com nada. Acho que é isso que me assusta mais no meio de tantas coisas grandes e assustadoras, é ter-me habituado a elas. Quero sentir-me tão natural como fora. Porque haverei dado um pedaço de mim a cada um de vós? Terei nascido assim tão burra? Dada, talvez. Natural. Inocente. Onde foi tudo isso agora? Não queria transformar-me nisto. Quem me dera que o soubesse antes. Ter tido a premonição que seria assim.
Teria arriscado na mesma, como uma tola? Correrá-me isto nas veias como um tipo de sangue que me pertence? Tantas perguntas, tantas incertezas, tantas perdas e tantas sombras numa fragilidade de corpo que designo minha. Talvez se pudesse palpar-me a alma poderia arranjar as respostas nela. Será fraca também?
Quebrar-se-á a alma de uma pessoa, ou apenas o que segura a alma? Quem me dera poder descobrir. Quem me dera poder sair desta realidade, talvez para uma realidade que nem eu própria pudesse criar, não posso criar nada para mim se não me aceito no que sou e no que me pertence. Uma realidade longínqua, segura, onde ainda não poderia ser um pedaço amarrotado, sem me ver onde estou, onde sou, onde quero ser. Quem me dera poder fazer tudo de novo. E não me culpar de fazê-lo.
Mas a culpa tem de ser entregue, como uma sombra humana, os actos vêm cheios de culpa, os momentos cheios de memórias e o tempo cheio de tudo, e de nada. Porque não curas-te tu todas as minhas feridas, tempo? Acreditei em ti. Fora assim tão ingénua? O que importa agora... Nada. Nada importa, na realidade. Não sei onde gostar do quê, onde pertencer, onde me agarrar... Frágil e pequena. Presa, vazia e sombria. Alguém me leve para casa, por favor. Alguém me traga de volta e diga que estive presa dentro de mim, dentro de um pesadelo que eu própria criei, mas que há saída. Que há outra saída se não a entrega ao que me sufoca e me enfraquece. Não posso entregar-me ao acto de desespero que sobrecarregas-te em mim. Não posso fazê-lo. Sei que estás aí. Reconheço-te como se fosses parte da minha mão, conheço-te porque me percorres em todo o corpo, em toda a alma. Mas se foste capaz de tirar tanto de mim, por favor, imploro-te,
porque não o trazes de volta?